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Portugueses à espera do Brexit: “Temos de agir rapidamente assim que

Catarina Reis - www.dn.pt


Se há cinco anos, enquanto preparava as malas para partir para Inglaterra, António soubesse que o país para onde emigraria estava prestes a dar início ao polémico acordo do Brexit, garante que provavelmente não teria embarcado. Contudo, Theresa May, primeira-ministra do Reino Unido, já marcou data e até hora: às 23:00 do dia 29 de março de 2019, o país deixará oficialmente de fazer parte da União Europeia. Deixam-se mais de 45 anos de história conjunta para trás e o futuro de muitos portugueses como incerto. Em 2017, cerca de 23 mil emigraram de Portugal para território britânico. São menos 26% do que no ano transato, mas o Reino Unido continua a ser o destino migratório predileto dos portugueses, mesmo com Brexit à vista.

Tem 49 anos e vive em Londres, onde é motorista da Uber. Em Lisboa, António Moreira deixou a mulher e os filhos, e seguiu à procura de uma vida profissional mais segura. Encontrámos António através de um grupo de Facebook onde emigrantes portugueses no Reino Unido partilham informações entre si. Na sua página pessoal, não deixa o manifesto escondido: a foto de perfil é a bandeira da União Europeia. É contra o Brexit e a fotografia serve mesmo para “marcar uma posição”, explica.

Emigrar “foi um acidente de percurso”. Aos 44 anos, com o canudo de um curso superior em gestão, ficou desempregado, depois de quatro anos empregado numa empresa de retalho que acabaria por falir. Sair do país foi a solução óbvia. Nunca trabalhou com a Uber em Portugal, mas fazê-lo no Reino Unido soou mais apetecível. A “afinidade com a cidade, a língua e a cultura inglesa”, bem como “a força da libra”, ajudaram na decisão. A ideia era ficar, pelo menos, dez anos. Agora, já não tem tanta certeza. “Estou sem saber bem o que fazer”, confessa. “Não só o referendo partiu a sociedade britânica a meio, como veio dar voz e encorajar certos pontos de vista que eram divulgados com mais receio e que hoje são opiniões públicas”, mas “porque Londres é multicultural e mais liberal do que o resto de Inglaterra”, o que se pode já sentir do Brexit ainda “não se sente tanto” por lá. António diz ter já um “plano B para sair”, caso “não goste do que acontecer”.

Já Maria Silva confessa ainda não estar “totalmente esclarecida das consequências” que o acordo político pode ter sobre os imigrantes. Vai esperar para ver, mas gostava de ficar. Foi apenas há dois meses, com 52 anos, que resolveu viajar até Bridgwater, uma grande cidade histórica inglesa, onde agora mora e também trabalha, como cozinheira num restaurante local.

O marido foi à frente e conseguiu este emprego para Maria, que à semelhança de António também tinha acabado de ficar desempregada. Diz que as diferenças são notórias. Foi “na esperança de uma vida melhor” e agora conta “ficar até ser permitido”. O salário é bem maior do que aquele que lhe poderia ser prometido em Portugal, onde a idade tem um peso que Maria diz já não ser capaz de suportar. “Aos 52 anos, já se é velho para o mercado de trabalho” em Portugal. “Há muita discriminação nas idades”, diz. Em Inglaterra, garante que a história é outra. Por isso, voltaria a escolher este destino e tentará aguentar as consequências de um Brexit tanto quanto possível, por sentir que o país onde nasceu jamais lhe conseguirá dar as mesmas oportunidades.

Para eles, o Reino Unido ainda agora começou

Enquanto Maria e António emigraram para recomeçar as suas vidas, Sofia e João Pedro, mais jovens, emigraram para as começar. Para eles, a vida em território britânico ainda agora viu o seu início e os objetivos são muitos, ainda que admitam o receio do que março de 2019 lhes pode trazer.

Sofia Pascoal, de 28 anos, mudou-se há dois e meio para Londres, acompanhada pelo namorado. “O melhor mestrado na área que queria seguir era no Reino Unido”, começa por contar. Acabaria, assim, por se tornar aluna de um curso de Desenvolvimento Internacional na Universidade de Sussex, em Brighton. A ideia de estudar ou ter uma experiência profissional no estrangeiro era antiga e, de repente, Inglaterra pareceu-lhe um bom plano. Tornou-se mestre em agosto deste ano.

“Penso que as pessoas estão a vir já, para estarem ‘instalados’ antes de o acordo sair”

Ainda a primeira semana não tinha chegado ao fim e o namorado de Sofia já tinha conseguido emprego. Sofia percebeu logo que este era um país com “bastantes oportunidades, muito mais do que em Portugal”, embora “a competição seja também maior”. Enquanto estudou, passou por trabalhos em part-time. Diz ter ido “preparada para trabalhar em cafés” e outros estabelecimentos do género, mas rapidamente a oportunidade profissional que ambicionava chegaria. É atualmente gerente corporativa numa empresa social.

“Penso que quem é mais ambicioso profissionalmente sente curiosidade em vir para Londres”, diz. “É uma cidade muito grande, com muitas oportunidades de trabalho que não existem em Portugal neste momento. E se vir para Londres é algo que já está nos planos, penso que as pessoas estão a preferir vir quanto antes para estarem já “instalados” antes de o acordo sair”.

Apesar das ambições, não olha para Londres “como uma morada permanente”, mas também não está na agenda regressar a Portugal, pelo menos nos próximos anos. Gostaria de ficar pelo Reino Unido por mais alguns anos, apesar de sensível aos problemas que o Brexit pode trazer. “O Brexit é uma realidade nos media e um tema aceso na sociedade civil”, por isso, já pensou abandonar o país para onde emigrou. Contudo, confessa, “é difícil de prever o que quer que seja”, porque, afinal, “ninguém sabe o resultado final nem como nos preparamos para tal”. “Resta-nos esperar e agir rapidamente assim que houver um acordo”.

Há menos tempo emigrado e com apenas 23 anos, está João Pedro Vale. O jovem português mudar-se-ia do Porto para o sul de Inglaterra, Eastbourne, a 23 de outubro de 2018, data que não esquece. Apesar de ter família em território britânico, João aventurou-se sozinho, para trabalhar numa empresa que vende líquido para cigarros eletrónicos.

A decisão não foi tomada de ânimo leve. Entre a ponderação de custos e as burocracias necessárias para emigrar, passaram-se alguns meses de espera. Mais de um ano depois, confessa olhar para o futuro como uma incerteza, mas a ideia do Brexit não o impede de sonhar: João gostava adquirir o passaporte inglês para facilitar as deslocações entre Reino Unido e Portugal. Assim como para Sofia, Portugal não faz parte dos planos a curto e médio prazo. “Tenciono ficar cá o máximo de tempo possível até atingir os meus objetivos”, diz. “E caso o Brexit se venha a revelar uma dificuldade”, João já tem tudo planeado: “Procuro continuar o meu trabalho num outro país”.

“Sente-se nas ruas”

Dos mais otimistas aos mais pessimistas, há algo que é unânime entre todos: o Brexit é um tema inquietante. E até há britânicos a fazer o percurso inverso a alguns portugueses, que se tentam instalar no Reino Unido antes de março, e a refugiarem-se em Portugal, antecipando-se ao que poderá vir.

Depois de conhecidas as conclusões do relatório da Imigração relativo ao ano de 2017, que apontava o Reino Unido como o primeiro país de destino dos emigrantes portugueses – ainda que com uma quebra no número de entradas destes mesmos no país -, o chefe da diplomacia portuguesa, Augusto Santos Silva, apontava a saída do país da União Europeia como um dos principais desafios do governo para o próximo ano. O emigrante António Moreira diz este é tema recorrente nas ruas nos últimos tempos, onde Sofia Pascoal garante que é possível sentir “um desconforto geral entre britânicos e europeus”.

António segue o rasto dos números divulgados esta semana pelo Observatório da Emigração e prevê mais quebras na imigração, mas Sofia defende que esta questão não é linear. Numa tentativa de adivinhar, apostaria também numa descida da imigração, mas lembra que quando chegou ao Reino Unido (e este acordo já era tema em discussão) pensou que começaria a sentir esta tendência e não foi o que encontrou. “Pelo contrário”, garante. “Vejo muita gente jovem e qualificada que continua a eleger o Reino Unido como destino de trabalho”.

Ainda assim, António diz-se incomodado com o ambiente sentido atualmente por todo o país. E João Pedro Vale remata: “O Brexit é vivido todos os dias e, sem dúvida, deixa receio nos que cá estão”.

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