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Primeira-ministra britânica apostou todas as fichas na saída da UE, mas caiu, em lágrimas, sem ficar sequer perto de a cumprir.

Sai de cena a 7 de Junho e deverá ter sucessor até ao final de Julho. António Saraiva Lima. Publico.pt


Theresa May fez os possíveis e os impossíveis para o evitar, lutou contra tudo e contra todos para lhe resistir e usou todas as vias imagináveis e inimagináveis para fugir dele. Mas o ponto final numa das mais atribuladas lideranças políticas da História moderna do Reino Unido, consigo como protagonista, já tem data marcada: 7 de Junho.

A poucos meses de cumprir três anos à frente do Governo e perante o isolamento total dentro do Partido Conservador, a primeira-ministra britânica não teve outra hipótese senão abrir caminho para a sua sucessão, esmagada sob o peso insustentável do processo de saída da União Europeia e pelo fracasso absoluto da sua estratégia para a cumprir.

“É – e permanecerá para sempre – um motivo de profundo desgosto, para mim, não ter sido capaz de cumprir o ‘Brexit’”, assumiu esta sexta-feira, sem rodeios, na hora de enfrentar as câmaras para o mais duro dos discursos que já teve de fazer em frente ao número 10 de Downing Street. E foram tantos.

Mas este discurso constará na memória futura como o dia em que se ficou a saber que a resistência de May, afinal, tem limites. Ao ponto de a deixar em lágrimas, no seu tramo final: “Foi a honra da minha vida exercer o cargo que irei abandonar brevemente – a segunda primeira-ministra mulher, mas não a última, seguramente. E faço-o sem mágoa, mas com uma enorme e duradoura gratidão de ter tido a oportunidade de servir o país que amo”.

Não foi a derrota nos tribunais, que determinou a competência do Parlamento para participar na decisão final do “Brexit”, que derrubou May. Também não foi a perda de maioria na Câmara dos Comuns, numa eleição convocada por si para reforçar o poder. Nem as constantes negas de Bruxelas, nem a maior derrota de sempre de um Governo numa votação em Westminster, nem as 36 demissões de membros do seu executivo em menos de três anos e nem sequer o abandono continuado e humilhante das suas linhas vermelhas sobre os planos de saída da UE.

A primeira-ministra foi derrubada pelo estado de isolamento total e de descrédito absoluto em volta da sua figura, partilhado por gente de dentro e de fora do Partido Conservador, e que não foi mais do que a soma cruel de todos os contratempos e embaraços anteriormente citados, e mais alguns.

Prego no caixão

Já o prego no caixão político de May, foi a mais recente versão do acordo do “Brexit”, que teve o condão de transformar uma onda generalizada de contestação no Partido Conservador, numa autêntica revolução, à qual aderiram ex-deputados, deputados e ministros tories.

O documento actualizado previa a possibilidade de a Câmara dos Comuns decidir sobre um segundo referendo, a realizar entre a aprovação e a ratificação do acordo, para além de sugerir uma união aduaneira temporária, para mercadorias, entre Reino Unido e UE, após a saída.

Mas tanto brexiteers como remainers suplicaram à primeira-ministra que abandonasse estes planos, e acabaram por exigir a sua saída imediata – May já se tinha comprometido a largar a liderança do Governo e do partido tory, sem indicar a data – quando perceberam que queria avançar para a quarta votação da proposta em Westminster.

“Fiz tudo o que foi possível para convencer os deputados a apoiarem o acordo com a UE. Infelizmente, não consegui”, lamentou May. “Tentei três vezes. Acredito que foi correcta a decisão de perseverar, mesmo quando as probabilidades de insucesso eram elevadas. Mas tornou-se agora claro que é do interesse superior do país que um novo primeiro-ministro lidere estes esforços”.

Compromissos e legados

Uma das ideias mais repetidas por May, no seu discurso de renúncia, foi a da necessidade urgente de se encontrarem e promoverem “compromissos” na política britânica. Opositores e analistas sempre denunciaram, no entanto, a indisponibilidade da primeira-ministra para consensos, apontada como uma das principais falhas da sua liderança.

“May não tem o hábito de seguir os conselhos dos colegas, raramente muda de ideias, não é uma negociadora flexível e não é uma grande comunicadora”, explicava recentemente ao PÚBLICO o professor de Política Britânica da Universidade de Queen Mary, Tim Bale. “Agiu como se o resultado do referendo do “Brexit” tivesse sido esmagador e não uma vitória por uma margem reduzida. Essa postura fê-la abdicar, muito cedo, de qualquer consenso parlamentar. E sofreu as consequências quando o acordo foi votado pelos deputados”.

Pela forma como May transformou o “Brexit” na sua missão pessoal e se deixou consumir, nessa tarefa, por um sentido de dever desmesurado, será difícil encontrar o seu lugar na História sem avaliar o sucesso da demanda. E, por isso, Matthew Goodwin, especialista em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Kent, não tem dúvidas sobre o legado que lhe sobreviverá.

“Theresa May será simplesmente lembrada como a primeira-ministra que falhou a concretização do ‘Brexit’. Não ficará para a História por mais nenhuma contribuição que tenha feito”, disse esta sexta-feira ao PÚBLICO. “Depois de Margaret Thatcher, John Major e David Cameron, constará nos livros de História como a quarta primeira-ministra conservadora a ser derrubada pelas questões europeias”.

Sucessor em Julho?

A escolha do próximo primeiro-ministro é o episódio que se segue, na saga do “Brexit”. May ainda vai estar em funções quando o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aterrar no Reino Unido para uma controversa visita de Estado, mas a partir do dia 10 de Junho os dados estão lançados para uma corrida que se quer terminada antes do final do mês seguinte e das férias de Verão.

Num comunicado conjunto, o presidente do Partido Conservador, Brandon Lewis, e dois vice-presidentes do Comité 1922 – o grupo de deputados conservadores sem cargos no Governo que negociou a saída de May –, revelaram que as candidaturas para a sucessão da primeira-ministra terão de ser feitas até à semana que começa a 10 de Junho. Depois disso, haverá lugar a “rondas sucessivas de votações”, até “à escolha final dos candidatos que serão votados por todos os membros” do partido.

“Prevemos que o processo esteja concluído até ao final de Junho, para permitir que os membros possam conhecer e questionar os candidatos, e votem a tempo de o resultado ser anunciado antes de o Parlamento interromper os trabalhos no Verão”, refere o comunicado.

O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Boris Johnson está entre os favoritos para a substituir. Dominic Raab, David Davis (ex-ministros do “Brexit”), Michael Gove (ministro do Ambiente), Philip Hammond (ministro das Finanças), Esther McVey (ex-ministra do Trabalho), Jeremy Hunt (ministro dos Negócios Estrangeiros) e Andrea Leadsom (ex-líder parlamentar) são outros possíveis candidatos.

O líder da oposição, Jeremy Corbyn, prefere, naturalmente, eleições à nomeação de um novo líder tory. O dirigente máximo do Partido Trabalhista congratulou-se por May “ter tomado a decisão certa” ao demitir-se, mas lançou dúvidas sobre a capacidade dos conservadores para assumirem as rédeas do Reino Unido.

“A primeira-ministra aceitou agora o que o país já sabe há meses: que não pode governar, tal como o seu partido, dividido e em desintegração, não pode governar”, reagiu Corbyn. “A última coisa de que o país precisa é de mais fragilidade, gerada por uma luta interna entre conservadores. Seja quem for o novo líder, tem de deixar o povo decidir o futuro do país em eleições imediatas”.

 

Quem é o mais preparado(a) para substituir Theresa May ?

 

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