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OPINIÃO: É tempo de reverter o “Brexit”

Por IVO ILIC GABARA. As eleições locais de 3 de maio são importantes para o “Brexit”. Os eleitores terão a chance de enviar uma mensagem clara ao governo e seus representantes no Parlamento.


As eleições locais serão realizadas em Inglaterra no dia 3 de maio. Depois das últimas eleições gerais, convocadas de forma precipitada por Theresa May, em junho de 2017, apenas para perder a maioria parlamentar, estas eleições locais são a primeira oportunidade para os eleitores se expressarem sobre o “Brexit”, que está gradualmente a ganhar forma em Bruxelas. Pode até defender-se que esta é mesmo a primeira oportunidade para os eleitores expressarem a sua opinião sobre o “Brexit”, já que agora se sabe e compreende muito melhor as consequências do “Brexit” do que na altura do referendo “Dentro ou Fora” da União Europeia, em junho 2016.

As eleições locais devem ser sobre questões locais, como a educação, os serviços de saúde, a habitação, a qualidade das estradas e a segurança de nossas ruas. Mas o Governo e o Parlamento do Reino Unido também devem preocupar-se com questões mais amplas, como o estado da economia do Reino Unido e o SNS. No entanto, o governo do Reino Unido está fixado numa única questão, o “Brexit”, em detrimento de tudo o mais. E assim será nas iminentes eleições locais. O “Brexit” vai aparecer nas mentes dos eleitores quando eles se dirigirem às assembleias de voto. Entre esses eleitores estarão milhões de cidadãos da UE residentes no Reino Unido, pois eles têm o direito de votar em eleições locais.

São um grande público que só tem a perder com o “Brexit”. Não há absolutamente nenhuma vantagem para eles em qualquer forma que ganhe o “Brexit”, seja “suave”, “dura” ou a de “um ‘Brexit’ à beira do precipício”. O mesmo acontece com quase um milhão e meio de cidadãos britânicos residentes em toda a UE.

O “Brexit” não é apenas sobre imigração, o Mercado Único ou a União Aduaneira, é também sobre emoções – e não levou a boas até agora. O “Brexit” mudou o ânimo da nação britânica. A nova narrativa pós-referendo da UE refere-se a “inimigos do povo”, “sabotadores” e “cidadãos do nada”. Isso é preocupante. É uma narrativa onde é perigoso entrar.

É particularmente preocupante que isso esteja a acontecer no Reino Unido. Este é o país que, ao longo da sua história, orgulhosamente e de forma altruísta, defendeu valores como o Estado de direito, a liberdade de expressão e a democracia parlamentar.

O “Brexit” também é sobre realidades económicas difíceis. Após o referendo da UE, a primeira coisa que aconteceu foi a desvalorização mais acentuada da libra britânica desde a Segunda Guerra Mundial. O “Brexit” também teve um impacto relevante no investimento empresarial, que parou por causa da incerteza política e económica.

O mesmo vale para a imigração para o Reino Unido. Um número substancial de europeus não veio, e um número substancial decidiu sair. Consequentemente, o SNS está agora sob stress, pois os enfermeiros e médicos da UE estão a regressar a casa ou a não vir para o Reino Unido.

De uma forma geral, o efeito do voto no “Brexit”, até agora, é que a economia do Reino Unido está a ter o crescimento mais lento dentro da UE, à exceção de Itália. Tudo isto é consequência apenas do resultado da votação no referendo para deixar a UE, e a saída ainda nem se concretizou.

Há pouco de positivo a esperar do acordo que o governo do Reino Unido vai negociar em Bruxelas. O Reino Unido estará muito menos integrado no maior mercado e união alfandegária do mundo e não haverá provisões para os serviços, que representam 80% da economia britânica. Por outras palavras, esta é a primeira vez que um governo britânico decidiu ir contra a liberalização do comércio e agir contra o interesse económico deste país.

Uma análise mais detalhada do impacto do “Brexit” mostra uma imagem ainda mais sombria. As cadeias de fornecimento no fabrico de carros no Reino Unido serão interrompidas, as indústrias criativas dependem da livre circulação de talentos, enquanto a cidade de Londres não pode funcionar corretamente sem os atuais direitos de passaporte.

O livre comércio é suposto ser a grande vantagem do “Brexit” que irá compensar todas as outras perdas. Isso dificilmente é credível. É uma ideia estranha pensar que, se o Reino Unido deixar o maior mercado do mundo, estará livre para embarcar em novas relações comerciais. Novas relações comerciais com quem?

Theresa May foi para a Índia recentemente com uma grande delegação empresarial em busca de novas oportunidades comerciais. A Índia disse que podia ser, mas pediu que se facilitasse a atribuição de vistos aos cidadãos indianos que chegam ao Reino Unido. A primeira-ministra disse que não e o acordo comercial com a Índia rapidamente se comprovou ser uma quimera. Olhemos para o panorama mais amplo do comércio.

O Presidente Trump acaba de iniciar uma guerra comercial com a China, mas retirou a ameaça contra a UE, uma vez que a UE deixou claro que haveria medidas gravosas de retaliação. A UE provou ser uma fonte de força, capaz de retaliar.

A Grã-Bretanha sozinha não conseguiria. Deixar a UE agora, quando estão a ser travadas guerras comerciais globais, é como entrar sem roupas num nevão.

Assim, enquanto o Secretário de Comércio Internacional do Reino Unido, Liam Fox, viaja pelo mundo à procura de novas oportunidades de comércio, é difícil ver como é que algum desses acordos poderá trazer benefícios reais, e menos ainda compensar as perdas resultantes da saída do Mercado Único e da União Aduaneira. Tal como disse Sir Martin Donnelly, ex-secretário Permanente do Departamento de Comércio Internacional de Liam Fox, que também era secretário permanente de Sir Vince Cable no Departamento de Negócios, Inovação e Competências, sair da União Aduaneira é como “desistir de uma refeição de três pratos pela promessa de um pacote de batatas fritas”.

No entanto, o “Brexit” não é inevitável, pode ser parado. O único instrumento legítimo e democrático para fazê-lo é dar ao povo britânico a palavra final sobre qualquer acordo que os conservadores consigam em Bruxelas. Se eles receberam a primeira palavra, então por que é que Theresa May tem tanto medo de lhes dar a palavra final?

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